NOTA DE DESLIGAMENTO DA REDE EMANCIPA

Quem somos, sempre fomos e continuaremos a ser

O Cursinho Popular Carolina de Jesus foi fundado em 2010, no Capão Redondo, por militantes da educação popular da Rede Emancipa, nasceu com o intuito de construir uma experiência de educação gratuita e de qualidade, por meio de um cursinho pré-universitário para estudantes e ex-estudantes periféricos egressos, principalmente, do ensino público.

Nesses seis anos de história e amadurecimento, os militantes do Carolina de Jesus se aprofundaram na suas bandeiras de luta sempre comprometidos não apenas com o ingresso na universidade, mas também com a transformação da realidade, lutando pela democratização do ensino superior (o que necessariamente implica na democratização de todas as instâncias do ensino), pelo fim do vestibular e por uma educação libertadora, que possibilite o desenvolvimento do pensamento crítico.

A transformação da realidade é, portanto, uma prioridade, e, como instrumento para a efetivação dessa transformação, acreditamos no movimento social como espaço de luta pela superação das contradições atuais e por uma educação transformadora. Lutamos contra as opressões no intuito de criar ações e alternativas que busquem superar os nossos problemas sociais.

O nosso movimento social acredita que, em um espaço educacional, ser comprometido com a transformação social implica em adotar uma prática verdadeiramente alinhada com pautas que lutam pelos direitos das pessoas pobres, das negras e dos negros, das mulheres, das lésbicas, dos homossexuais, das pessoas bissexuais, das pessoas trans, das pessoas deficientes, enfim de todas as classes oprimidas. Deste modo, para sempre seguirmos alinhados com a luta contra as opressões e com a efetivação de uma nova forma de se conceber educação, nos declaramos como um movimento de Educação Popular comprometido com o fortalecimento das classes populares.

Somos um movimento de organização popular apartidário, o que significa que apoiamos e entendemos a importância da organização partidária, mas em nossas ações, prezamos pela construção coletiva e plural dissociada de interesses partidários e autocentrados nas disputa de poder político eleitoreiro.

O nosso cursinho é, sempre foi e sempre será plural e apartidário. É possível que em determinados momentos tomemos posições alinhadas com um ou outro partido por defesa de uma causa comum, porém nunca teremos alianças formadas ou serviremos, enquanto cursinho, aos interesses partidários.

Acreditamos na expansão e difusão do nosso movimento, e para isso uma necessidade ímpar é que esse crescimento seja discutido e pensado para que possamos ampliar não só nosso nome, mas a nossa política e forma de ação. A partir dessa reflexão, uma das nossas formas de fortalecimento é o diálogo com outros movimentos sociais e associações regionais. Mais do que importar iniciativas que pouco dialogam com a realidade dos nossos estudantes, é preciso entender que nosso trabalho está situado em uma comunidade periférica e desigual, mas que tem suas ferramentas de empoderamento através da construção coletiva, necessária para a luta contra esse modelo capitalista e excludente de sociedade.

Nesse sentido, nossa expansão segue alinhada com uma perspectiva de democratização da educação, que mais do que uma simples massificação do ensino, entende que nossos estudantes não são simples massas sem rostos, mas sim sujeitos políticos e atuantes, que tem direito ao acesso a todos os níveis de educação de forma crítica e comprometida.

Priorizamos também que o nosso movimento seja construído por militantes que se identificam com o nosso modelo educacional que visa transformar a educação ao mesmo tempo em que transformamos a realidade e que instrumentalize os nossos estudantes, educadoras e educadores contra as opressões que sofrem. Além disso, é igualmente importante que haja uma identidade com as nossas bandeiras de luta, respeitando-as e apresentando disposição para construí-las, o que significa ser um espaço de desconstrução e construção permanente e simultânea de novas experiências, não só dos estudantes, mas também de todos os nossos professores e militantes.

Defendemos também que o exercício constante da autocrítica, aliada e baseada à ação prática, deva ser característica inerente a qualquer movimento social. Nenhum movimento pode se desenvolver de forma efetiva enquanto excluir a possibilidade de ser plural em prol de seguir uma linha única de pensamento. Sendo que se essa linha for partidária e não explícita aos estudantes e militantes em egresso, fica evidente uma grande irresponsabilidade e falta de comprometimento com o diálogo e a transparência, características fundamentais a qualquer movimento que considere se democrático.

O recorte de classes é, para nós, uma pauta levada com extremo comprometimento e transversalidade a todos os níveis de entendimento, para que nosso cursinho não seja um espaço elitista de reprodução dos discursos da classe dominante, ou mesmo um instrumento de trabalho voluntário sem real comprometimento com a total transformação social. Compartilhamos e entendemos a realidade dos nossos estudantes, nossa atuação não é voluntária, mas militante, política e cotidiana.

Para que a nossa prática supracitada seja efetivada, é necessário que estejamos inseridos e atuantes na realidade de nossos estudantes, que também é a nossa, partilhando-a e lutando sempre, lado a lado, para sua transformação, isso diz respeito não só às questões de um contexto educacional especifico (como o roubo da merenda, ou o fechamento de salas de aula e escolas em diversos estados do Brasil), mas também a situações complexas e estruturais que a nossa sociedade atual enfrenta (a precarização generalizada da educação pública, o genocídio da população negra e pobre das periferias de São Paulo, a situação de vulnerabilidade que nossas alunas sofrem diariamente em suas casas, a falta de acesso e as condições que afastam o jovem periférico dos estudos etc.). Discutir conjuntura, para nós, é estar comprometido em entender como todo um cenário historicamente desigual interfere nas nossas vidas e na vida dos nossos estudantes e como pensamos, propomos e criamos conjuntamente alternativas para este cenário.

Desta forma, pelo real comprometimento com a periferia e com a população pobre e com a forte convicção de quem somos, de quem sempre fomos e de quem continuaremos a ser que anunciamos que desde 17 de abril de 2016, o movimento social Cursinho Popular Carolina de Jesus não faz mais parte da Rede Emancipa.

Respeitamos a Rede Emancipa pelos anos de construção coletiva e desejamos a vocês sucesso, a nós a revolução.

Até a luta!

“Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para!”

Sergio Vaz

Ficamos à disposição de todas e de todos para esclarecimentos.

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