A Rede Emancipa - movimento social de cursinhos pré-universitários gratuitos - vem, através dessa nota, denunciar o caso de racismo sofrido pela estudante Ellidhy Olivera na prova do ENEM 2015 nos dias 24 e 25 de outubro. A estudante, que usava uma faixa no cabelo, foi pressionada a passar por uma situação desnecessária e vexatória, em que o fiscal de prova pediu que ela retirasse a faixa do cabelo para que esta passasse pelo detector de metais. O MEC, com seus editais e normas, precisa necessariamente rever seus conceitos para que a população NEGRA não passe por esses casos de intimidação. Sabemos que as mulheres negras utilizam-se de turbantes para manter viva sua ancestralidade e sua história, e NÃO SÃO, em hipótese alguma, itens de chapelaria. O caso de racismo ocorrido por causa da faixa de cabelo na participante, mostra o quão estrutural é o racismo, e o tanto que as pessoas que aplicam as provas estão TOTALMENTE despreparadas. O caso de racismo pelo qual passou a estudante tem inúmeras consequências imensuráveis para sua vida. Por causa do pensamento simplista de alguns fiscais, o emocional da estudante foi prejudicado. É urgente que o preparo dos responsáveis seja revisto, de forma a respeitar a população NEGRA. Não podemos continuar a relacionar pessoas negras com ações negativas. Nós da Rede Emancipa REPUDIAMOS todo o constrangimento e explícito racismo a que foi submetida a estudante.
Texto postado pela aluna Ellidhy Oliveira no Facebook:
Já que todo expressar é livre, uma vez que não feito em anonimato, depois de 3 dias do acontecido e de muito pensar sobre, naquele bom lugar de pensar que é a janela do ônibus, decidi escrever sobre minha indignação, e o que considero como incitação ao preconceito.
"Nos dias 24 e 25 de outubro de 2015, me desloquei, como milhares de jovens, de minha casa à um colégio a fim de realizar o Exame Nacional do Ensino Médio, como faço desde 2012, e, posso afirmar que nunca me senti tão constrangida como na edição deste ano.
Fiz o Enem no colegio João Baptista - R. Maj. Manoel Francisco de Morães, 156 - Centro, Itapecerica da Serra - SP. No dia 24 - 1° dia de prova - Cheguei na escola por volta das 12:20, usei o banheiro e fui para a sala. A moça/recepcionista que estava na porta da sala me pediu o doc. com foto, entreguei o RG, e perguntou sobre eletrônicos, eu entreguei o celular desligado e então, fui orientada para entrar na sala, e o fiz. Quando sentei, poucos segundos depois a chefe de sala Andrea me disse que eu teria que retirar a faixa da cabeça pois se tratava de ítem de chapelaria e este era proíbido pelas regras do Enem - de fato, ítens de chapelaria são proibidos e, como é a 4ª vez que presto o exame, tenho ciência de tal e respondi - isso é apenas uma tiara de pano, ítem de chapelaria que tem como exemplo é boné, chapéu... Ainda assim a chefe de sala insistiu pra que eu tirasse, porém, me neguei. Feito isso, ela disse que chamaria a coordenação para resolver o caso. Me desestabilizei. Nunca passei por isso e, devido a complexidade do exame, tento, em todas as vezes me manter calma, mas, foi impossível dessa vez.
A coordenadora chegou na sala e me pediu que a acompanhasse, eu o fiz e, no corredor mesmo, ela me perguntou se eu poderia retirar a faixa, pra que ela passasse o detector de metais - no edital e como acompanhamento do cartão de confirmação, diz que, o participante que se negar a se submeter a vistoria com detector de metais pode ter sua participação cancelada - retirei a faixa, com muita vergonha pois, cabelo cacheado não se mexe depois de arrumado, abri e ela visivelmente entendendo o papel ridículo ao qual estava se prestando, passou o detector pela faixa e constatou que era comum, não tinha nada nela. Perguntei se tinha acabado, recoloquei a faixa de qualquer jeito e voltei para a sala enquanto a cordenadora ficou no corredor tentando se explicar dizendo que isso era "normal" e que acontece em outras escolas - normal? Nunca passei por isso enquanto meu cabelo era "liso" - voltei para a sala, chorei contra minha vontade mas, tinha ciência de que precisaria de controle emocional mais que qualquer outra coisa para iniciar e concluir o exame.
Chegando em casa, contei sobre o acontecido para minha mãe e, ela até disse que costumo usar faixas fininhas mesmo e que, a que eu estava era realmente grossa. Acatando o que ela disse, me preparei para o dia seguinte.
(...)
No segundo dia, peguei algo mais fino para "prender" o cabelo, realmente uma tiara de pano, a fim de evitar o transtorno do dia anterior.
Na porta do colégio estava a moça que me "revistou" no dia anterior.
Em vão, pois, desta vez, quando cheguei na porta da sala, fui impedida de entrar. Quando me ofereci para entregar o doc. com foto, de imediato a "recepcionista" disse para eu aguardar pois queriam falar comigo. Na hora me estressei lembrando do dia anterior. Uma moça, também participante, que estava atrás de mim apresentou os documentos e pode entrar tranquilamente na sala (detalhe: cabelos lisos, sem nenhum adereço), eu me irritei e quando pensei em questionar o porquê dela poder entrar e eu não, um senhor chegou questionando se era lá que tinham solicitado ele. A recepcionista confirmou, e ele me pediu para segui-lo. Questionei por que deveria fazê-lo, e ele, gaguejando e demonstrando desconforto e insegurança quanto ao motivo, disse que era por causa da tiara - lembrando do que acontece em caso de resistência, me prontifiquei a seguí-lo.
Dessa vez numa sala longe dos olhos dos participantes, o sr disse que uma auxiliar iria passar o detector de metais pois eu portava a tiara na cabeça e isso era contra as regras (oi?). Me pediu pra que eu afastasse os braços e pernas, e em seguida a auxiliar passou o detector em mim/ sobre mim, enfim...
Nada constatado, fui liberada do ridículo e voltei para a sala, mais uma vez irritada com o acontecido".
O que me intriga é que nunca antes passei por isso.
O que me intriga mais ainda, é o fato de que, enquanto eu estava com os cabelos lisos, nada me transtornou/impediu de adentrar uma sala de prova, mas, uma vez que um cabelo "suspeitamente" volumoso adentra um local, é motivo para olhares distorcidos, e a utilização de um detector de metais (?!).
E a competência dos responsáveis pela aplicação da prova, que não têm a capacidade de interpretar o que diz as regras? Diferenciar um ítem de chapelaria, de uma tiara (adorno, adereço)?
Pode ser considerado como drama para muitos mas, não desejo que ocorra com mais ninguem.


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