As mentiras da democracia

Joana Salém Vasconcelos*

Em meio à polarização crescente da sociedade brasileira nos últimos meses, pouco se falou sobre um fato extraordinário para a luta social e democrática no país: foi lançada a Comissão da Verdade da Democracia “Mães de Maio” (CVDMM) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A iniciativa é fruto de uma articulação entre mais de 20 coletivos e movimentos sociais, apoiada pelo ex-deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), que não se reelegeu em 2014. As Mães de Maio protagonizam a conquista, dando-lhe um impulso combativo. A alusão destas contemporâneas mães brasileiras às aguerridas mães argentinas não é mera coincidência. Suas lutas por verdade e justiça guardam semelhanças históricas importantes, tão notáveis quanto são as marcas de continuidade das transições das ditaduras para os atuais regimes eleitorais da América Latina.
A origem do movimento das Mães de Maio é trágica e corajosa. Todos se lembram que o mês de maio de 2006 foi marcado pelo confronto aberto entre PCC e PM paulista.  Em menos de duas semanas, entre muitos toques de recolher nas periferias de várias cidades, 493 cidadãos foram executados ou desaparecidos, a maioria com comprovada participação policial. Dentre as vítimas, 351 tinham idades entre 11 e 31 anos. Há quem afirme que na realidade o número de mortos é bem maior. Desde então, mães, pais e parentes próximos das vítimas iniciaram um périplo em busca de verdade e justiça. Como se pode imaginar, se depararam com portas fechadas, arquivamentos de investigações, argumentos técnicos duvidosos e ameaças. Uma mãe chegou a ser presa, pressionada a parar sua busca particular. Em alguns casos, as provas da ação criminosa de grupos policiais já existem, mas a impossibilidade de individualizar o disparador dos tiros fatais é utilizada como escudo burocrático dos executores. “Não há provas de quem realizou o disparo”, escutam, logo antes do arquivamento das investigações. Apesar dos incontáveis obstáculos, as Mães permanecem determinadas a encontrar, julgar e punir os agentes de Estado que cometeram os crimes.
O caso das Mães de Maio é apenas um exemplo das mentiras que sustentam a democracia brasileira, dentre inúmeros outros crimes de Estado que permanecem impunes. A verdade é que a violência de Estado no país não chegou a diminuir com a transição ao regime democrático, tão somente substituiu seu alvo prioritário. Se durante a ditadura, a doutrina de segurança nacional tratava militantes de esquerda como inimigos internos de uma guerra civil, hoje os “inimigos internos” são outros: a juventude pobre, negra e periférica. A criminalização da pobreza se intensificou como prática sistemática e naturalizada do Estado democrático.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2009 e 2013, mais de 11 mil pessoas foram assassinadas por agentes de Estado no país. Nestes cinco anos, as polícias brasileiras mataram mais do que a polícia estadunidense matou em vinte. Além disso, o Mapa da Violência de 2013 (coordenado por Waiselfiz) revelou que os casos de investigação e elucidação de assassinatos no Brasil varia entre 5% e 8% dos inquéritos, número que alcança 65% nos Estados Unidos, 80% na França e 90% no Reino Unido. É como se a pena de morte já existisse no país.
Houve também a multiplicação dos autos de “resistência seguida de morte”, subterfúgio que na prática libera agentes de Estado para matar impunemente. Na última década, chegaram a mais de 12 mil ocorrências. Ou seja, a democracia brasileira é uma espécie de máquina mortífera, que assassina em média 6 de seus cidadãos por dia, combinando alta letalidade policial com ausência generalizada de justiça.
As últimas eleições foram particularmente desastrosas nesse aspecto. Como explicar, por exemplo, o sucesso eleitoral dos candidatos defensores da redução da maioridade penal? Financiada por empresas de armamentos, a “bancada da bala”, tropa política da criminalização da pobreza no Congresso Nacional, cresceu em 30% nas últimas eleições, conquistando quase 60 vagas na Câmara. Com isso, obtiveram controle da maioria dos votos da Comissão de Segurança Pública, podendo aprovar seus projetos com facilidade. Em São Paulo, o emblemático Coronel Telhada, que usou seu mandato como vereador para homenagear a Rota com a “Cruz de Honra Constitucionalista”, foi alçado a deputado estadual.
É nesse cenário difícil que surge a Comissão da Verdade da Democracia em São Paulo. Já foram realizadas duas audiências públicas e há um calendário de encontros até julho (mais informações aqui). Os movimentos que a constroem assumiram a tarefa de recolher depoimentos da população vitimada pela violência do Estado democrático, investigar a estrutura das cadeias de comando da Polícia Militar de São Paulo, recompor detalhes de diversos casos de chacinas e assassinatos da última década e elaborar recomendações políticas no sentido da conquista de justiça.
A Comissão da Anistia do Ministério da Justiça e a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal formalizaram seu apoio. O mandato do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) não só está acompanhando de perto os desdobramentos da novidade, como batalhando para construir no Rio de Janeiro uma iniciativa semelhante. Apesar disso, a CVDMM ainda é institucionalmente frágil, ameaçada por correlações de forças desfavoráveis da própria Alesp e precisa garantir que a Comissão de Direitos Humanos não seja sitiada pela bancada estadual da bala.
Trata-se, enfim, de um passo importante em diversos sentidos: denunciar a violência do Estado democrático, amplificar a voz das vítimas, enfrentar os interesses autoritários que ainda controlam espaços estratégicos do poder e fortalecer a proposta de desmilitarização das polícias. De maneira mais ampla, iniciativas como essa apontam para a superação do sentido conservador da transição democrática que atravessamos desde os anos 1980.
Nossos vizinhos como Argentina, Uruguai e Chile, que em diversos aspectos construíram processos de justiça de transição mais vigorosos que o nosso, ainda não tinham dado um passo como esse. Também para eles, o exemplo pode ser inspirador. Para uma transição incompleta e autoritária, convém uma Comissão da Verdade permanente, que denuncie o Estado democrático como agente contínuo de violência social.

* Joana Salém Vasconcelos é historiadora.

Publicado no dia 1/4/2015 em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10642:submanchete010415&catid=72:imagens-rolantes

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